E se eu não for como você?

Tenho percebido o quanto nos sentimos desconfortáveis com o pensamento do outro quando diverge do nosso e da força de homogeneização que TODAS as correntes culturais apresentam.

Me chama muita atenção quando mergulho na percepção do ser que sou e na minha própria fisiologia. Observo como meus pensamentos, emoções e corpo respondem ao travar contato com uma única pessoa que pensa alguma coisa diferente de mim. Também me instiga como respondo quando percebo que estou diante de um grupo do qual discordo em algum ponto.

Te convido, inclusive, a fazer uma experiência meditativa, nem que seja por um minuto: eleja alguém de quem você discorde em alguma questão, pegue uma foto desse ser e em silêncio, sentado, respire calmamente e finalmente comece a observar suas respostas involuntárias: pensamentos, sentimentos e quem sabe tente perceber seu corpo. Como será que ele responde? 

Essa observação não é para apontar como errado discordar, mas para apenas observar como o corpo responde na discordância.

Bom, eu já tive experiências muito interessantes ao fazer isso. Percebi que imediatamente meu corpo começa a entregar alguma coisa que remete à sensação de resistência, talvez um impulso de luta ou fuga. Isso quando não sinto alguma força sutil de submissão que procura invalidar o que penso para validar algum ponto de vista de outra pessoa ou grupo em estou inserida naquele momento.

Quando falo disso, estou explicando sobre níveis muito sutis do corpo, quase que a percepção do que seria um pré-reflexo, algo que não necessariamente chega à ação, é uma observação que parte de um olhar sensível a partir da meditação.

Diante disso, me vi muitas vezes me questionando e tentando seguir receitas prontas passadas por culturas ou mesmo gurus; ou, no lado oposto da moeda, acreditei ser certo convencer alguém de algo. 

Quantas vezes na vida eu tentei seguir receitas prontas e me perdi.

Receitas sobre:

o que é ser certo, o que é ser bom, o que é ser.

E o quanto a nossa cultura tá recheada de “seja algo” que não necessariamente é o que você precisa manifestar enquanto ser.

E essa história de que existe uma referência do que é ser certo, bom e belo é muito bem exemplificada pela cultura de colonização. Que diante de seres autônomos e autossuficientes, uma ideia de falta é projetada e no lugar onde antes havia povos originários vivendo uma vida abundante, hoje facilmente se encontra pobreza e degeneração. 

Não estou dizendo que qualquer povo não tenha lá suas questões, estou apenas mantendo o ponto do que entendo por modelo idealizado e destruição do diferente.

Quantas culturas são demonizadas e marginalizadas nesse processo, pelo simples fato de serem diferentes. 

Isso, na visão ampla da história, mas o que me afeta é sobre a parte individual, sobre nossas particularidades em cada ser humano. 

Afinal, já temos alguns pequenos avanços quando o assunto é respeitar certas escolhas que divergem daquela cultura dominante que antes massacrou para se posicionar como A FORMA CORRETA. E, então, pouco a pouco, vamos ganhando algumas batalhas ao mostrar que sim existem outras formas de existir e que merecem respeito. 

Exemplo disso foi a conquista da liberdade de expressão religiosa, ou a liberdade de opinião e expressão. 

Socialmente estamos APRENDENDO a respeitar independentemente da raça, cor, sexo ou escolha sexual. Que já é um grande avanço. 

Mas o que ecoa em minha cabeça é: quando vamos aprender a respeitar pura e simplesmente? Sem precisar de leis, de laudos médicos, diagnósticos ou punições?

Quanto tempo vamos demorar para entender que somos seres cada um muito específicos, muito únicos, e que cada um tem uma forma especial e já é um grande trabalho conseguir encontrá-la?

Mas a verdade é que estamos longe de nos conectarmos com a nossa essência, por estarmos socialmente desesperados por servir a um padrão, e assim, abafamos nossa própria individualidade.

Quer saber quando essa supressão do que é único se perpetua enquanto comportamento, condicionamento e cultura? 

Se você observar bem, estamos o tempo todo brigando com o diferente.

Ele incomoda muito. 

O diferente nos faz lembrar que EXISTE algo diferente

E, se existe algo diferente, isso é um espelho para o diferente em nós.

Assim como é um espelho para a forma como o nosso diferente foi recebido pelo mundo. 

Afinal, geralmente, é da mesma forma que recebemos o diferente no outro, a não ser que tenhamos consciência do processo. 

Como é desconfortável lidar com um diferente:

Assim o estranho é apartado e marginalizado. 

Logo, nosso corpo, muito inteligente, sabe do risco de ser diferente, e prontamente, bate o medo dessa exclusão. Então, ou entramos na caixa, ou corremos um sério risco: o da exclusão.

E o interessante é que nesse caminho de buscar quem sou, percebo o quanto me sinto desconfortável quando o outro não entende a minha parte diferente.

Mas é esse o trabalho, descobrir o que se é, e dentro do respeito, óbvio, SER, apesar do estranhamento do outro. 

Por si só esse caminho de se conectar consigo já é um grande desafio, pois não é sobre repetir o padrão de ousadia, de ser diferente ou de ser exótico. Mas de se conectar com partes mais profundas do seu ser.

Por outro lado, o quanto essa busca por padrão gera ansiedade e competição.

Afinal, 

se tem padrão…

tem métrica

se tem métrica…

tem medição

se tem medição…

tem comparação

se tem comparação…

tem valoração daquele que atinge a métrica.

se tem valoração…

tem exclusão

se tem exclusão, tem medo, angústia, ansiedade

E assim, mais e mais a gente vai ficando longe do ser que é de fato.

É uma roda de ilusão… um ciclo… não virtuoso… mas vicioso.

Qual será, então, o caminho?

O seu eu não sei. 

Mas às vezes parece que um caminho é ir buscando esse descanso em si mesmo. 

É ir fazendo essas perguntas:

quem eu sou? 

Qual meu lugar no mundo?

E se o meu lugar no mundo for único? E se eu for um ser único? 

Haverá competição? 

Haverá melhor ou pior? 

É… mas acredito que para encontrar esse lugar 

é preciso muito

muito relaxamento

muita… muita descontração 

Para você ir descansando em quem você é 

E descansando do que não é para você.

Pois quando você começa a buscar aquilo que se é de fato, você vai começar a perceber que:

Muitos lugares

Pessoas 

Ações 

Não são para você

Muitos…

E aí você precisa começar a descansar no não:

não dá certo, não é para mim, não funciona comigo

E tá tudo bem!

E aí você vai se ver dizendo muitos e muitos nãos. O que a princípio é um pouco angustiante, porque se eu venho de uma história que diz que as oportunidades são escassas, eu vou ficar ávida por uma, por preencher um lugar e finalmente descansar.

Só que essa “boa oportunidade qualquer” geralmente é vazia e também angustiante, inclusive pelo medo de perdê-la. Assim eu me agarro e mais uma vez eu não relaxo. Sigo nessa luta sem descanso, com medo das minhas emoções e do mundo.

Por outro lado, a busca do próprio eu, ou do próprio lugar não é nenhum mar de rosas e, principalmente no início, você pode se ver muito sozinho e sentir-se vulnerável. 

Por isso, é um movimento baseado na coragem. 

O que acho interessante é que mesmo no vazio, na solitude, você vai começando a se ancorar na sua coragem interna. E aos pouquinhos, pode começar a perceber o que é você, o que faz sentido, e talvez encontrar qual é o seu lugar no mundo.

Se você persiste e aprofunda…

Se diz não para aquilo que não é seu, que não flui com quem você é de fato .

Pode ser que devagarzinho comece a encontrar coisas e lugares que são mais você mesmo e que têm mais força com a sua presença

Talvez assim você comece a sentir-se mais relaxado dentro de si.

E sua segurança passe a vir de ser quem você é.

E não de outra coisa. 

Então você começa a ficar confortável em ser diferente. 

Inclusive, confortável diante da diferença do outro.

Afinal, tá tudo bem, você não precisa mais que o outro seja como você para que se sinta seguro. 

Sua segurança passou a residir em si mesmo.


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